Saturday, August 05, 2006

Parashat: Ekev 05/08

A ARTE DO AMOR A DEUS

Rabino Eliahu Birnbaum

Em toda religião existe uma dimensão objetiva e outra subjetiva.

As distintas crenças de cada religião e o caminho através do qual o homem vincula-se com ditas crenças compreendem a parte objetiva que existe nelas. O caráter da relação que estabelece o homem com Deus é a parte subjetiva da religião. Na história da filosofia e dos credos houve uma época na qual teve destaque, principalmente, a parte objetiva da religião, enquanto que na época moderna enfatizou-se a parte subjetiva.

A crença que obriga a uma demonstração da evidência de Deus ainda não é uma religião. Quem acredita na existência de Deus, porém não tem nenhuma relação com Ele, não é religioso. O filósofo fala da evidência de Deus, porém o indivíduo religioso não apenas tem conhecimento da Sua existência, mas também estabelece com Ele uma relação de amor, de segurança e de devoção. Esta relação é a parte subjetiva da religião.

O caminho preferido que deve escolher o homem para aproximar-se de Deus está condicionado a qualidade da concepção que tem d’Ele. Tem-se certeza que é a moral o valor que melhor define a Deus, será a moral o caminho de aproximar-se d’Ele.

No judaísmo existe um fluxo constante entre o motivo de amor e o motivo do dever. Esta orientação mostra um aspecto especial da concepção de Deus: o Deus do amor é também o Deus da lei.

O dever do amor aparece em muitos lugares da Bíblia como uma demanda absoluta que se exige do homem, uma espécie de ordem categórica.

O judaísmo é uma obrigação de amor e ensina ao homem judeu a forma de chegar a Ele. Existem aspectos nos quais a Bíblia prescreve o amor em forma clara e precisa: amor a Deus, amor ao próximo, amor ao estrangeiro ou prosélito. Porém, apesar de tudo, a concepção geral do judaísmo reitera e enfatiza a necessidade de amar a vida do ser humano. O objetivo dos deveres, obrigações e diversos valores da Bíblia é educar ao homem para que sejam atendidos os vários aspectos do amor, como auto-estima, amor ao cônjuge, amor à família, amor a Eretz Israel, amor a Bíblia e amor à sabedoria.

Existem distintos tipos de amor ou, melhor dizendo, distintas opiniões sobre este tema. Porém o mais difícil de entender é o amor a Deus, que se apresenta como uma exigência para criar o conhecimento que contém a razão humana. O homem ama a si mesmo, quer a sua esposa, ama a sua família, ama a sua pátria, quer prata e ouro. Tudo isto é relativamente fácil de amar, já que são elementos concretos, acessíveis ou, pelo menos, imagináveis. Porém, como conceber o amor a algo que não está dentro do mundo do palpável, lógico ou imaginável?

Para responder a esta pergunta devemos refletir sobre o resto dos versículos do capítulo que fala sobre o dever de amar.

“Cumprindo seus mandamentos e preceitos...”

O amor não permanece no mundo da imaginação. O significado do amor Divino, segundo estes versículos, é a disposição do ser para executar as obrigações contraídas com Deus.

Existem três caminhos centrais para alcançar o amor a Deus: o intelectual, ou seja, por meio do estudo; o sensível-emocional (senso-emotivo) e o da prática, quer dizer, cuidando das obrigações (preceitos).

Deus se revela no sistema cósmico e no sistema moral (axiológico), porque quando o homem estuda e entende, graças a sua inteligência as funções de ordem cósmico e moral, aproximam-se ao mesmo conhecimento de Deus.

O Rambam afirma que inclusive o amor, que é expressão de um sentimento, depende do nível intelectual do homem. A investigação intelectual sobre a ordem cósmico e moral de Deus atua como uma ponte que se estende entre Deus e o homem.

O caminho para chegar à devoção a Deus não reside unicamente na observação da Bíblia e seus deveres, mas abrange também os feitos concretos. O estudo de seus atos e o descobrimento de sua natureza pode produzir no indivíduo um sentimento de ebulição. O homem pode conhecer a Deus e chegar a amá-Lo através da percepção da natureza. Deus revela-se diante do homem também pelo caminho da natureza, por meio das manifestações estéticas, a beleza e a magnificência espiritual.

Através do coração conseguimos nos sujeitar a Deus, porque quando o coração governa, vence o intelecto. O homem se eleva por cima do mundo finito e se encontra com seu Criador. Trata-se de uma experiência pessoal, talvez mística, aonde o espírito do homem se aproxima de Deus. O livro de Salmos, que é prodigiosamente uma criação religiosa, descreve a experiência direta que emana do mundo dos sentimentos do homem frente a Deus e que não depende de nenhuma norma ou lei; é uma experiência não dirigida nem programada, cuja raiz se encontra na busca instintiva, involuntária, espontânea, de Deus.

Quando o homem cumpre com as obrigações Divinas, sujeita sua vontade a vontade de Deus e assim consegue a aproximação. O objetivo de uma vida normativa é elevar o homem ao plano espiritual, orientar seus impulsos biológicos e psicológicos, e conseguir um modo de vida sagrado, que lhe ensine a venerar o Criador.

A observância das qualidades de Deus e seus ensinamentos conduzem ao conhecimento e a evidência do poder Divino.

Desta forma, é possível explicar como a Bíblia pode exigir que se ame apesar do amor tratar-se de um sentimento e uma percepção, pois a devoção não se encontra apenas no mundo dos sentidos, mas também aparece na realidade e em sua prática cotidiana.

O judeu venera a Deus, não por temor ou por medo do castigo, senão por amor transparente e puro.

Devoção é a integridade que se eleva como um privilégio do homem de fé. Segundo escreve o Rambam, o homem deve viver por amor e pensar todo o tempo nele, como um apaixonado pensa todo o tempo na mulher amada e seus pensamentos estão apenas dedicados a este sentimento.